São Roque, Março de 1952.
A Voz tinha dito e eu deixei-me invadir por aquele fragor que tinha o poder de aterrorizar e acalmar simultaneamente.
“Durante três dias, estarás fora do corpo - trovejou - e por três dias deverás macerar-te nas três dimensões, deverás lutar para superar, vencer para merecer, morrer para nascer, ser sombra para tornar-te luz e ter o dom de poder dá-la“.
Oh Deus! Quanta alegria sinto no poder dar-Te todo o pulsar deste coração humano, que suprema honra me concedes, dignando-me servir-Te e adorar-Te!
E agora por ordem do Mestre devo escrever minhas impressões, valendo-me da lembrança daquele pouco que ficou em mim da divina viagem.
Senti um golpe no coração como se ele fosse parar. Meus membros pareciam paralisados e o meu corpo gélido e imóvel parecia petrificado, duro, morto, embora me sentisse viva, completamente consciente e dona de meu pensamento.
Repentinamente, como obedecendo ao impulso, encontrei-me fora do corpo e de um golpe minhas sensações mudaram improvisadamente.
Estavam no escuro, trevas completas à minha volta e tinha a estranha sensação de que aquelas sombras espreitassem como uma cousa horripilante e viscosa.
Senti-me desmaiar, como se tivesse corpo precipitei-me com um urro de pena e de tormento, atraída pelo escuro abismo sem fundo.
Enfrentava, assim, inconscientemente o lugar que minha consciência deveria percorrer, vivendo aquele horror desconhecido e monstruoso. Tenazmente, debati-me no abismo pegajoso, úmido de milhares de mãos que não via, de milhares de corpos descompostos, pútridos que me roçavam, me apertavam no seu monstruoso emaranhado.
A morte. Era o reino da morte e das trevas. Sofri mil agonias, mil mortes me dilaceraram com a mordedura aterrorizante de sua ferra. Senti as bocas descarnadas, sugando minha alma para saciar seu desejo de vida.
Uma luta obstinada, muda, desenrolou-se na sombra horrível. Tentei subir, subi, aumentei meu esforço, consegui livrar-me daquela massa de horror.
Oh Deus! Sê comigo - invocou minha alma exausta.
Uma tênue luz se fez ao meu redor e uma dulcíssima Voz chegou a mim como eco celeste: “Passaste pela primeira esfera da vida, onde o desejo é a morte da carne e assim pudestes superar o reino das trevas e venceu a morte”.
O lindo clarão que agora me cercava, realmente não era convidativo. No verde opaco fulgiam chamas escuras, avermelhadas, aterrorizantes, dentro das quais dançavam línguas flutuantes do mesmo fogo escuro, formas espectrais com as órbitas vazias, tenebrosas, sem vida e, no entanto desesperada e angustiosamente vivas, na sua tremenda expressão de inacabado na condenação suprema, pavorosa, de ceder e consumar-se, para voltar a arder e consumar-se, até que o desejo de Deus não purifique do desejo de carne e de suas paixões.
Caminhei na senda sem fim do horror. Gemidos acompanhavam meu andar, enquanto me sentia agarrar por uma ânsia inominável.
Onde estava o meu Mestre? Onde estava o meu Deus? Talvez os tivesse perdido no reino do fogo tenebroso?
Por que devia macerar no mesmo fogo da culpa e das paixões onde a infinita, pavorosa falange ardia?
“Sê calma” - de longe me alcançou o eco divino - se a vida tem suas exigências, também à ascensão espiritual a tem, e se é necessário vencer as trevas da morte para entrar na vida, é necessário também superar as paixões da vida para reentrar no reino da morte!
“Ultrapassa a segunda esfera, a do fogo das baixas paixões e supera-te”.
Senti uma grande calma, interiorizei-me e imediatamente tive a sensação de subir.
Um arrepio me sacudiu do doce torpor que me invadira, um grande frio se apoderou de mim e sombras brancas e sombras escuras foram se sobrepondo rapidamente.
O clarão azul de um céu distante, ainda muito longe, encorajou-me. Estrelas luminosas brilhavam como lagrimas de luz sobre o fundo ametista.
Sentia-me prisioneira de algo que embora sendo transparente, pesava tremendamente.
Podia porem, me mover com facilidade como se deslizasse sobre um fundo de veludo.
Claras sombras ao meu redor deslizavam com estranhas fosforescências, outras lampejantes se debatiam, como pregadas ao solo movediço e escuro. Figuras imprecisas, elásticas, gorgolejantes nas suas roupagens por vezes iridescentes e tênues, por vezes verdes e viscosas. Criaturas horripilantes e criaturas de sonhosucediam-se uma às outras, pesadas as primeiras, leves e saltitantes as outras.
“Eu sou a sombra elementar do Mar, sou o tormento da vida e da morte e sou o elemento do mal e da destruição” - sibilou uma sombra com a forma de um gigantesco polvo, monstruoso, abrindo o bico duro de tom avermelhado escuro.
“Somos as ninfas, as sereias e as ondinas, somos as tecelãs da vida, somos as ondas que renovam, somos o bem e a harmonia, vem conosco, mostrar-te-emos nossos tesouros” - disse um grupo de sombras brilhantes cercando-me com o encanto melodioso da voz e tentando levar-me.
Porem senti-me como que pregada.
“Esta “eride” astral me pertence” - tonitroou a voz cavernosa do gênio marinho que por primeiro havia falado, e com seus tentáculos me agarrou, chicoteando com os outros as delicadas sombras que fugiram amedrontadas. Aquele abraço viscoso, nojento, rebelou-me; inutilmente tentei libertar-me, minhas mãos estavam sem forças e sem defesa. Parecia-me morrer mil vezes no seu aperto que sugava minha energia.
“Fecha teu astral EL - disse a mim mesma - tu és, e nenhuma força material pode dominar teu ego”.
Achei-me livre. Um canto harmonioso me alcançou e me confortou. Uma chuva de perolas como gotas luminosas acompanhou minha subida, enquanto ao longe Netuno desaparecia sobre seu coche de ouro, saudando-me.
“A terceira esfera foi superada, prepara-te para a grande prova” - advertiu a Angélica voz, enquanto aflocava em um níveo mar de gelo.
Um redemoinho transportou-me para o alto. Desaparecia todo aspecto monstruoso e tudo assumia o tom doce, pacato e delicado que a distancia faz adquirir às coisas humanas e astrais.
Finalmente não mais estava só no vazio tenebroso. Plaudzer, o grande anjo do Sol me acompanhava.
“Estamos na quarta esfera - disse - no reino atmosférico que divide os planos da sombra e da luz. As forças do alto nos atraem para fora da galáxia, para os Grandes Seres que nos dirigem do Sol, primeiro degrau da luz radiante”.
Nuvens círios tempestuosos e negros nos envolveram, trovejaram com suas vozes tonitruantes vãs ameaças, fulguraram suas foscas Radiações, mas nós passamos e tudo se esclareceu, primeiramente em tênues clarões lilases, rosa e dourados, depois em uma esplendida apoteose de luz azul, intensa, vibrante.
Subimos ainda. Extasiada pelo espetáculo que se oferecia a meu espírito, pensei: “quanta luz, quanta luz, quanta luz, meu Deus!”.
“É Ele a Primeira Luz” - ouvi Plaudzer murmurar junto a mim. Exultei; “É verdade, é Ele a Luz. Oh! Meu espírito, sê digno.” Assim ficamos por um tempo sem medida. Como é doce flutuar sem corpo no céu que parece um prado de ouro, marchetado de gemas preciosas.
Ah! O Sol! Finalmente a quarta esfera, etérea. Uma luz ofuscante subitamente me atingiu como se fosse dura, física, dolorosa. “Estamos na quinta, atrás da porta da vida que parece luminosa, amadurece a dor. Queres enfrentá-la? - perguntou-me tristemente o anjo. “É necessário enfrentá-la, devo enfrentá-la.” - respondi sem esitar. Persignei-me e penetrei naquele halo convidativo de luz.
Deus! Que tormento, quanta ânsia! Parecia arder. Parecia que todo o fogo da terra queimasse em mim e mil espinhos incandescentes penetrassem na etérea substância do meu eu astral.
Veio-me o impulso de fugir. Mas uma risada satânica me conteve desafiando-me. “Tens medo de lutar e de sofrer?” Disse. Era ele. ”Não, não” - respondi com dificuldade - “não retrocederei”. Apenas tinha pensado isso, uma espada fulgurante apareceu à minha frente. Empenhei-a e a apontei em sua direção, o gênio imundo, que retrocedeu com um salto. Mas não se deu por vencido e me lupentou novamente para atormentar-se ainda com suas blandícias. Lentamente ergui a espada fazendo o sinal da cruz, sinal majestoso, divino. Ele fugiu como atingido pelo raio e eu avancei sem mais angústias.
“Deus! - murmurei - que seja a purificação”. Depois, dirigindo-me ao anjo: “Plaudzer, dá-me também a cruz, com minha espada defenderei esta cruz…”
“Não vês - respondeu o anjo - a primeira cruz já foi confiada ao Homem-Deus?”.
“Sim, vejo, tem o corpo sujo de vermelho-disse - mas é sangue. Quanto sangue! E a culpa do seu calvário parece daquele romano que alberga todas as maldades da humanidade”.
Procurei aproximar-me do sacrificado para lhe dizer: Eis o meu amor, une o Teu com o meu sangue. Mas uma força me deteve. “Deixa-me passar, deixa-me passar - gritei - deixa-me”. Lutei com a espada para fazer caminho entre as sombras do ódio e da inconsciência. Por fim senti-me livre. “Graças Mestre - disse - a sombra fugia, mas há uma estrada longa, longa, cheia de espinhos”.
“Queres enfrentá-la?” Murmurou a voz.
“Sim, quero. Não tenho medo da dor, não tenho medo da dor”.
As provas são longas e árduas. As superarás, novamente? Perguntou como um eco a voz Angélica.
“Sim, superarei todas as provas - disse segura - mas quais, quais são estas provas?”.
Pacatamente, como se cada palavra se revestisse de um oculto significado Plaudzer disse compassadamente:
“A Vida, a morte, a luz, a sombra, o bem, o mal…”
“Dá, também, minhas cruzes, mas não tires minha espada”.
“Sim… talvez meu pensamento por vezes não é perfeito e devo purificá-lo porque quero ser perfeita”.
“Dá-me, também, os espinhos de Jesus, dá-me um calvário do mundo, e prosseguirei pelo caminho que não mais termina… não termina mais…”.
Eis uma outra porta que impede a subida. “O que é? O que deseja? Quem é?”.
“Sou a lembrança do próprio passado”.
“O que queres de mim?”.
“Renovar as chagas do destino”.
Uma invocação parte como uma onda de fogo: “Longo ainda, Mestre, é este caminho?”.
Responde um doce canto, me aplaca: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor está contigo, sejas bendita entre as mulheres, sombra luminosa. Bendito será o fruto do teu ventre que chamarás Jesus”.
… Lembro… Seja feita a Tua vontade…
Quinto raio, quinta esfera. Esfera onde todo o mal se desencadeia e se exprime na luta.
Chegamos? Quando acabarei de existir? Quando poderei vencer?
O Grande Sopro nos chama e nos atrai.
Deixo na quinta esfera a minha espada.
Entro na sexta esfera e uma alegria me atrai. Como estou contente a me ver circundada por criaturas, divas e anjos!
Sinto-me, apenas, sem apoio, agora que o anjo guia não mais está comigo. Deixou-me sobre o humbral da nova experiência com estas palavras: “Entra no reino do astral”.
Sim, é o reino do astral onde as almas descidas param durante o sono e com grata surpresa vi virem ao meu encontro sorridente e alegre: Flamina, Diana, Olga, Gladis, Maria Elettra, Luce e por fim Leana El, luz de amor.
Sorrio feliz para elas enquanto uma nova onda humana se aproxima.
“Quantos! Quem são?”. Pergunto. Respondeu-me que são as flores que nascerão. “a espera do seu astral”.
Tudo é brilhante, tudo dourado, parece que um fogo purificador inunda nossas almas, beatifica nossos espíritos.
Pergunto “as minhas criaturas: “Porque vos encontro aqui”?”
Leana me explica: a deles nada mais é do que a imagem astral do corpo adormecido; e eu compreendo então que me encontro mergulhada na alma universal, a mente do mundo, a zona letea onde se condensa a projeção vívida, ainda que abstrata, do eu físico em repouso.
Seu aspecto nada mais é do que uma forma pensamento que chega até ali. Exprimem o desejo de me seguir, mas exorto-as a me obedecerem, a não fazê-lo.
Vejo, também, Gabriel e Armano e pergunto o que estão fazendo.
Sorrindo-me graciosamente me dizem: “Vê, assistimos a passagem da nossa rainha.”
“Não brinquem” - advirto.
“Mas é verdade” - respondem.
“Isto me confunde, filhos - murmuro comovida -”Nada mais me digam agora, somente quando passar novamente, se voltar. Sede boa, doce, perfeita. Segui o que diz o nosso Mestre e nunca esqueçais vosso dever, porque, vê Gabriel, nós somos quem somos e não devemos falhar aconteça o que acontecer. Um dia “como anunciador me abençoou e hoje sou eu que te abençôo como filho”.
Sinto que me chamam: “Estás pronta?” “Sim, estou pronta”.
“Deixa tua couraça” me é imposto pelo poder invisível que agora me dirige.
“Porque devo deixar a couraça? Pergunto”. Mas, somente o silencio responde como muda advertência. “Se é uma ordem, obedece”. Mas, no entanto penso que já me foi tirada a espada no outro globo e tenho a intuição que entrei na esfera das provas.
Devo ter coragem, muita coragem. Sinto-me pronta, mas um agulhão doloroso me oprime.
Que provas serão? Já não passei pelas infinitas torturantes provas elementares? (Nesta parte o significado oculto não pode ser completamente revelado. Isto está velado por trás do velado e eu não devo esclarecê-lo, ao menos por agora).
“Sim - me sussurram o eco do Poder - já passaste as primeiras provas no reino das esferas tenebrosas dos mundos inferiores. Agora deverás passar as outras superiores”.
Permaneci muda. “Mas quais são estas novas provas?” depois perguntei titubeante.
“Essas são a terra, o ar, a água, o fogo e depois, ainda, a sombra, a luz, o vazio e a substância, a dor, o pranto, a posse, a alegria. Tens medo por acaso?”.
Não, não tenho nenhum temor, já posso estar morta antes de morrer e posso viver sem viver.
“Sou o gênio oculto da vida e sou o fogo que cria e purifica, por que minhas cinzas jazem parte de ti, oh Terra, tudo se origina de ti, e parte de mim”.
“Amo meus filhos e por eles vivo”… Por eles me movo eternamente das trevas à luz.
“Sepultai-me também…”
“Oh Mãe Terra! Oh Gea, acolhe-me em teu seio a fim de que com minha ressurreição possa sentir a alegria de viver”.
Precipito, sufoco, uma longa agonia dilacera meu espírito. Um hálito gélido me alcança, é a asa da morte e eu cedo à doçura serena do seu abraço.
Mas breve é o repouso. Um turbilhão tempestuoso me arrasta violentamente do letargo e uma voz poderosa me grita: “Vem comigo. Sou o Pai semeador. Se no seio de Gea se multiplicam as formas é unicamente por causa do sêmen que nela joguei”.
Empurrada pelo vórtice invoco: Antioci! Antitea! Erguei-me no vosso abraço… “Arrastai minha vontade de viver”.
Apenas prenuncio isto, uma grande luz me alcança.
“Hei-lo, hei-lo, é Azaquiel…” grito. Sinto afogar-me me domina.
e ainda uma vez sinto as sensações de uma morte física que abriga meu espírito sem paz a afastar-se.
Depois me encontro só, só, todos foram embora, mas ao meu redor se erguem chamas altíssimas. Por um instante o temor me domina.
“Retrocede se não podes” diz o Poder.
“Não, não, não há retorno daquela parte, prefiro morrer mil vezes, morrer por toda a eternidade à retroceder” digo e penetro na pira ardente.
“Oh Senhor! Queimo!” grito, mas passo.
Como um sonho, a horrível prova da vontade de vencer é superada e uma túnica esplendente de ouro me envolve como uma promessa e uma esperança. É talvez, a benção do Mestre que me chega e me dá força?
O Grande Sopro me chama novamente e de novo me atrai na sua eterna energia.
Eis-me, agora, no éter. Tudo brilha nos céus remotos do ser.
Sinto elevar-me nos mais altos graus do intelecto; quase que meu espírito tinha rasgado o véu da sua consciência.
Ressurjo, e na infinita felicidade que me inebria grito: “Eis a ressurreição, ressurreição da carne, no triunfo do espírito. Somente à luz das suas conquistadas virtudes tudo esplende, tudo é claro, tudo é belo. Agora sou consciência e sei quem sou”.
Nike esta triunfante!
Nike esta vitorioso!
“Represento-te, oh Mitras… Luz do céu. Agora sei… agora conheço as verdades que fecundam as revelações”.
E penso no êxtase: “Esta verdade é o divino sangue do espírito, a que pertence, pois que participa da eterna sabedoria que é irradiada pelo Pai imponderável…”.
Da minha humilde sombra luminosa parte uma invocação: “Mickael, sou a tua humilde escrava ajoelho-me e Te sirvo como sempre, ainda que frequentemente me caiba suportar o fardo humano”.
Continuo a vagar nos abismos espaciais, quando, como suspensa em uma luz dourada, uma visão me inebria. Doce, sereno, esplendente na sua majestade, o Homem Deus se apresenta. “Salve Filho Divino”.
Compreendi então o porquê da vida, compreendi que até que esteja acesa a chama da criação, à luz desta tocha nascida de meu coração de sombra, Isis, o mistério, procurara sempre o esposo no templo do espaço e Maria subira o Calvário para chorar aos pés da Cruz à morte de seu filho. E compreendi que, unicamente, em virtude da dor e do amor, acendem-se esta chama, a fim de que a humanidade se aqueça ao seu calor e seja guiada por sua luz.
Uma meditação profunda me absorveu. Senti-me diluída como se não existisse, ao mesmo tempo em que sei existir, intensa e infinitamente.
É como se minha mente estivesse acordada e ao mesmo dormindo ao mesmo tempo. É como se o cosmos se tornasse um grande livro no qual pudesse ler o destino dos homens esculpido lentamente pela criação.
Suas paginas deslizam à minha frente e sinais de luz nelas flamejam.
As paginas do livro do destino. Oh Deus! Devo ler? Devo dizer revelar? Não sei, e no temor invoco o Mestre.
“Mickael - penso intensamente - indica-me o que dizer e o que devo encerrar no coração. Espero. Direi aqui somente o que me seja permitido dizer”.
E vi: vi o destino do gênero humano envolto por uma sombra, uma sombra imensa.
A alma universal manchada por esta sombra irá sempre à procura do amor divino perdido na dor por culpa dos homens que não sabem compreender.
Cada coisa amadurecerá a justa luz da evolução; até então crises tremendas amadurecerão no seio da involução as sementes de luz, de bem e de amor.
Os horrores de uma guerra foram afastados e os sofrimentos aliviados em virtude da Obra… Mas do oriente surgirá um novo perigo que se tornará sempre mais agudo e premente e o mundo sofrerá sob o golpe que o próprio homem ocasionara à sua humanidade…
Mas será o caminho de redenção e da ressurreição. Longo caminho, amargo caminho nas esferas da inconsciência - penso.
“Posso abrir?” - pergunto.
“Posso dizê-lo?”
Compreendo que deverei referir somente as linhas indicadas.
“Se os homens que regem o destino da evolução erram, a obrigação será dividida e os responsáveis deverão sofrer muito…”.
Não falo, não digo, não posso ir além. É-me imposto calar, mas sei e cumprirei a ordem, qualquer que seja e mesmo se custasse meu aniquilamento, inclinar-me-ei ao Querer Supremo.
Tinha perdido contato com qualquer forma material e não consigo imaginar quanto tempo meu espírito ficou inerte e inconsciente.
Quando comecei a perceber que o espírito tinha restabelecido o liame com o corpo perguntei: “Estais aqui”?
Giuseppe chamou-me com afeto, senti-me confortada por sua voz, seu pensamento alcançou-me na minha solidão imensa e com ele confirmei meu monologo.
“Os homens que tem o dever de realizar a Obra não poderão, não poderão cumpri-la se não forem seres perfeitos”.
“É necessário serem perfeitos” - respondeu-me Giuseppe.
“Certo - prossegui - de outro modo, o que farão aqueles que nos seguem e seguem nosso ideal, se não se espelharem em nossas Virtudes?”
“Meus filhos, meus filhos, um agudo sofrimento me dilacera, é talvez o reflexo do corpo mortal que sofre lá em baixo, auquilocado pela longa letargia”.
“Mas o que importa?” “É assim leve o fio da vida, seria um sonho parti-lo, mas não se pode mais do que culpa seria um delito”.
É a âncora que nos tem ligado ao mar infinito.
“Estou só no infinito, ligada ao mundo do finito e escuto… os cantos dos mundos? Sente a sublime sinfonia de Gea, a Terra?”.
E continuo a falar Giuseppe e Conceição: estais longe, no entanto tão vizinhos a ela, vês - digo como se eles pudessem vê-la - vês a luz vibrante da sublime harmonia, hei-la, é música é a harmonia das esferas, ouvis?… “Parecem tantas pérolas iridescentes que se entrelaçam e se dissolvem em claras notas de cores, em nuvens graciosas”.
Giuseppe responde: “Sigo teus passos e estou contente com tua vontade, que é a nossa vitória”.
“Vem, vem, tu também… será consagrado. Seria uma grande alegria para mim. Vem, será um sol radiante que cada vez mais se eleva”.
“Sobe tu” me exorta.
“Sou a sombra da luz, ainda não posso subir, é-me proibido”, digo aflita.
Encoraja-me ainda: “Eu te ajudarei”.
“Não podes - retruco - cada um deve vencer por si”.
Após breve pausa continuo: “Estou no Hálito Divino como um nada, ou melhor, menos que nada”. “Se na Terra, cada um vive pela Terra, eu sonho viver infinitamente pelo Hálito”.
Domina-me uma ânsia inexplicável. Esta solidão, esta sombra, esta quietude que parece eterna me faz sentir sempre mais a imperfeição da minha nulidade e esforço minha consciência para que se reencontre.
“Oh Deus! Oh Luz! Oh Mistério do mistério perfeito! Faz-me digna de Ti, faz com que volte a passar as mais dolorosas e amargas provas, mas encontre o justo caminho e possa alcançar Teu Coração - grito - ou volto a Antera perfeita, ou não mais voltarei”, de Giuseppe me chega: “Sempre foste a Antera perfeita”.
Desoladamente noto: “Estou sem espada e sem couraça”.
“És capaz de vencer sem espada e sem couraça” - retruca ele.
Como em sonho repito: “Estou na sombra da luz, sou a luz da sombra”.
Por vezes as vibrações do pensamento de Giuseppe me alcançam como feixes de ondas, depois desaparecem. Ele diz-me que esta sempre próximo e me pede que fale de mim.
“Vejo, como um fio luminoso etéreo, longo”… Longo… Longo que me liga ao meu “eu material”. Sinto-me fora do tempo, Giuseppe, longe, longe, no espaço sem tempo.
“Estou à espera de não sei o que e de que coisa”.
“Tua força me alcança como tantas centelhas e me mantém ligada a ti”.
“Queres que te deixe?” - pergunta.
“Não, desejaria somente que estivésseis próximo a mim”.
“Mas ali estou com minha mente” - me assegura.
Depois me abstraio completamente do que é humano e terreno e sinto diluir-se em mim o desejo lancinante de desligar-me de qualquer laço e de flutuar no êxtase supremo. E falando como se fora a mim mesmo exclamo: “Vejo o limite da luz e não posso alcançá-lo, não posso passá-lo”.
“Passa-o - encoraja-me Giuseppe em tom de amor e de força”.
“Repele-me - respondo - a potência da sua luz é muito pura e estou, ainda, prisioneira da potência escura”.
“Não existe potência que te possa reter ou te repelir”.
“Estou Tão triste, perdida neste abismo”.
“Mas não existe abismo - grita-me ele”.
“Existe, e na eternidade imóvel, não sei se subo ou se mergulho; Ele tem somente uma asa, e Isis se oculta, cobrindo-se com seus próprios véus, por hora é apenas pura expectativa, embora tentando abrir e ver”.
“E venceras tranqüila”.
Não sabia verdadeiramente se subisse ou mergulhasse. Tinha a sensação de estar perenemente em movimento, e também me parecendo estar estática sempre no mesmo ponto.
Repentinamente passou-me perto uma rajada luminosa e iridescente de centelhas. Espetáculo inesquecível, estupendo que o olho não vê, a pena não consegue traduzir, mas somente o espírito percebe.
O que era? Uma fuga de harmonias? Um vôo vibrante, infinito de Sois? Um palpitar de vida que se renova nos abismos cósmicos? Um pensamento divino expresso nos espaços e condensado no vórtice ígneo em fuga vertiginosa atravez dos abismos do tempo?
Como um eco muito longínquo, quase extinto da sombra viva da sua matéria, chegou-me o som da voz de Giuseppe que me pergunta: “Entraste no Incriado?”.
Não lhe respondo, mas continuo num intimo colóquio.
“Por que não posso subir? Por que não posso superar essas trevas e alcançar o mar incandescente da luz radiante? Que obstáculo o impede? Será talvez o peso deste pó que me mantém agarrada ao abismo da vida e das dimensões?”.
“Tenho medo de não poder ultrapassar os limites que me impõe a matéria viva e de não poder realizar”.
“Não deves ter medo de nada” - me exorta e encoraja a voz de Giuseppe.
“Oh Giuseppe, tua voz é muito humana, muito afastada tua força, mas se queres, queima meu corpo, desterra-o, assim não terei mais nenhum vínculo, não terei mais âncoras que me mantenham presa à cruz da existência”.
Uma voz Divina enche a eternidade. Parece um trovão, como um rio fervente me atinge, sua poderosa harmonia se cristaliza ao meu redor e eu consigo compreender o reflexo de Sua Vontade.
“Terminaste os sete ciclos e te reencontras no grande espaço da alma universal; Agora deverás superar uma outra prova, sombra da sombra, antes que a grande metamorfose se faça e possas entrar no Todo Imortal e teu espírito cego possa enfrentar a chama dos mistérios”.
“Invoca teu guia divino que te dirigiu atravez a harmonia das esferas e Possi o segredo da tua essência e dos teus destinos”.
“Agora estás inconsciente no obscuro mistério do não ser, deves, portanto, conquistar a suprema realidade impessoal para poder penetrar na consciência absoluta do Grande Sopro”.
Compreendi como no Todo Supremo daquele Eterno Presente tudo fosse perceptível e visível, embora sendo despercebido e invisível, próximo e distante e como nele se condensasse o conceito do Alfa e do Omega, principio e fim do Todo e do Nada, imutável e transcendente.
Desejaria que meus olhos mortais não existissem, pois que me submetem à prova, peço que sejam cobertos para poder viver a suprema apoteose.
Ainda pergunto: “O que devo fazer com este corpo gasto e cego?” E ouço, ouço de novo na vibração fluídica ressoar o Raio da Mente Emanante.
“Alma do Espírito Supremo, somente de Ti poderá surgir a rosa sobre a cruz da nova vida, mas para que isto suceda é necessário que ofereças teu coração partindo suas cadeias e destruindo a forma que o aprisiona. É necessário que saibas superar o oceano abismal da vida porque não existem no visível e estas mergulhadas no invisível negativo. Só assim poderás enfrentar e visinuar-te na Eternidade esplendente do Hálito e descansar na beatitude da Única Existência”.
A Giuseppe que pergunta determino: “Cobre meu vulto material” e quando o fez ordeno: “Descobre meu coração”.
Agora já sei qual o caminho a percorrer para reencontrar a essência do ser. Agora sei que para alcançar o princípio onipotente da Realidade Única, para fazer parte do Pensamento sem fim, para viver no seu próprio sopro devo anular os limites existentes entre a vida e a morte que me prendem às dimensões.
Sinto meu corpo respirar profundamente. Uma luz como um fulgor me investe. Do abismo tenebroso de Maya rasgou-se o primeiro véu.
Minhas mãos se colocam sobre o plexo solar e isto acalma a dor física que atormenta a forma humana a que estou ligada, que respira ansiosamente.
“Ouvis a Voz Eterna?” - pergunto.
“Vai, Ela diz - o eterno caminho se abriu”.
“Aquele, aquele, é o caminho, o caminho eterno? Oh Deus! Que céus refulgentes! Somente além da nossa humanidade dolorosa poderemos gozar de céus assim fulgurantes!”
“Coloco decididamente as mãos sobre o coração e tento arrancar o pó luminoso da vida. Repentinamente, vejo uma luz rosa em um tom ofuscante. É o Mestre. É o meu Mestre, a felicidade é tão grande que pensei em chorar humanamente. Ele me proíbe de rasgar o pó da vida”.
“Por que desejas que eu esteja ligada ao corpo?” - “para que possa transmitir tudo o que viste e sentiste”.
“Desejaria que minhas sensações fossem só minhas, gozadas e sofridas na minha imensa solidão, assim longe de Ti, de todos e de tudo”.
“Mas sempre te acompanharei” - me afirma o Mestre.
“No entanto julguei-Te distante, temia que me tivésseis abandonado num abismo tenebroso”.
“Somente porque devias reencontrar tua personalidade e saber renunciar a tudo o que te liga ao planeta”.
“Mas nada me liga - apresso-me a responder - nem afetos, nem prazeres. O que devo esperar para deixá-lo?”.
“Minha filha predileta” - me diz o Mestre - durante toda a eternidade agistes para o bem da consciência incondicionada do Movimento abstrato, para que a evolução se cumprisse, e tu colaboraste comigo nos ciclos da existência universal para que a substância cósmica, substancializando a Ideação, realizasse a consciência individual, para depois alcançar o Absoluto.
“Mas para fazer isto muito caminho ainda é necessário percorrer no universo manifestado. Não basta que o Pensamento Divino se imprima na substancia, não basta que as leis se expressem na natureza dinâmica, mas é necessário realizar o misterioso vínculo entre a Mente e a matéria, entre o principio animador e a manifestação”.
“Tu Mãe, Sombra irradiante, na Tua emanação periódica és o primeiro e o sétimo principio e assim deves permanecer radiação primordial, Vida e Morte na atividade cósmica do Grande Espaço. Acima de Ti estará o Espírito que Te animará e a Inteligência que Te guiará”.
“És Mãe, a Grande Mãe, és a alegria e a dor, a grandeza e a humildade, o abstrato e o concreto, a potência e a fraqueza. Como podes abandonar teus deveres? Não queres realizar a tarefa que te foi confiada, ainda que te custe todo o sofrimento humano?”.
“Sim, desejo fazê-lo e aceitarei Mestre, toda dor. Serena enfrentarei a luta. Porque sou sombra da luz que talvez nunca poderei alcançar…
O Mestre desapareceu ao longe, sinto meu corpo vivo já putrefeito; sinto seu hálito fétido que me alcança até aqui. Terão, talvez, os efeitos iniciais da decomposição do corpo que deve ter sido abandonado pelo espírito?
A sombra ainda me envolve. O que mais farei se já passei pela prova da vida e da morte, da terra, do fogo, da água e todas as outras?
A Grande Voz fala: “Saiba subir, saiba realizar, saiba penetrar e superar no reino das ilusões, antes de alcançar o da Realidade”.
“Compreendi! Compreendi! - respondo - é o da Sombra, é o da Luz”.
“Compreendi! Compreendi! - É necessário saber ser sombra para se tornar luz, Compreendi! Compreendi!”.
“Oh Deus meu! Faz com que eu seja a Tua sombra para poder viver na Tua Luz”! - invoco intensamente.
Apenas sai do meu espírito esta oração, vapores densos, ardentes, chamejantes caem do céu e um turbilhão de nuvens tempestuosas me absorve em uma imensa espiral.
“Subo Giuseppe” - grito com ânsia indizível.
“Vai querida” - me exorta.
Suporto as trevas tempestuosas cheias de sombras evanescentes, prenha de uma infinita variedade de criaturas efêmeras, dissolvendo-se em fluídos brilhantes, em miríades de reflexos, vaporizados do infinito.
Estou como nada no todo. Estou entre os limites do Nada e do Todo errando no reino das ilusões.
A espiral como uma imensa concha em cujo centro agiganta-se uma iridescente perola cuja luz me ofusca e me atrai. Mas ainda me encontro na zona cinza; mais acima está o esplendor infinito da perola, a perola que vibra:… Oh! O Mestre está aqui, precedeu-me! Dá ordem a Giuseppe, depois sobe.
“Oh Mitras! A ti deixo meu corpo. Parto para a roda dos beatos… ficarei ali até a noite de amanhã. Amanhã, talvez, poderei entrar na grande apoteose”.
Eis-me de frente ao Imaculado Esplendor da última esfera. Espaços etéreos, infinitos horizontes de safira, raios dourados sobre a ametista de uma imensa aurora que com seus véus azuis sela o grande segredo.
As celestes hierarquias contemplam a eternidade do Seu Poder e na Sua Luz se refletem a vida, os sois, os mundos.
É a expressão da Lei que fluem no Todo com suas divinas harmonias.
O Mistério dos mistérios, a Vontade soberana de que nasceu o Principio flameja à minha frente, me atinge me absorve naqueles Céus onde tem inicio o Espaço Ilimitado, o tempo irrompe do Pensamento e a alma universal sobressalta-se ao supremo augusto chamado de Sopro Divino.
Entro no fulgor da luz imortal, semem luminoso de todos os aspectos universais em que se oculta o Mistério Perfeito.
Quantas vezes ainda deveremos passar no circulo das gerações para que esta suprema felicidade, este êxtase maravilhoso possa ser conquistado eternamente? Quantas vezes deveremos nascer e nos regenerar para achar a luz nas trevas e compreender o Verbo Vivo?
Aparição ofuscante, visão divinamente tremenda que com a espada da Tua Luz me inebrias, embora me consumando com o fogo do Teu Amor, o que desejas desta tua filha, que perdida no Teu Seio, se anula no céu divino do Teu esplendor?
Quem saberá decifrar o Grande Enigma que se reveste de Luz? Quem saberá ressurgir em Deus, chegar a repousar na tua irradiação, embora nas maravilhosas cadências das tuas leis?
Quem poderá esquecer a maravilhosa visão e a tua divina iniciação recebida conscientemente no supremo santuário das harmonias?
Oh Deus! Perdoa minha alma, faz que o celeste presságio flameje sempre com imortal esperança! Faz com que Tua magnética luz me atraia a Ti eternamente e me absorva no Teu Centro incandescente, onde me possa fundir no maravilhoso, inefável, divino amplexo. Assim seja!
Os limites permitidos pelo Supremo Esplendor tinham sido alcançados. Tinha findado o vôo sublime e o Mistério Perfeito novamente fechava suas asas majestosas. Eu ainda prisioneira das dimensões, ligada pelo pó da vida, tive que deixar o espaço brilhante para emergir no ciclo das necessidades e voltar frêmito da natureza que novamente me absorveu outra vez no dinamismo universal.
Supremo êxtase, suprema felicidade, a lembrança divina acompanhou a rápida descida do meu espírito fazendo-o vibrar nas imutáveis e ignotas harmonias.
Como é mesquinha a palavra para ilustrar, ainda parcialmente, o que este tinha provado. Nenhuma expressão, jamais poderá chegar a traduzir o sentido imponderável do espaço tenebroso ou a exprimir a realidade suprema de ser sem existir de uma minúscula gota de sombra, diluída no raio brilhante da Primeira Aurora.
Mas tu; minha alma sabe e lembra. E quando o supremo sonho aflorar como uma grande ilusão dos planos inalcançáveis lembra o silêncio tenebroso, a vibração da eternidade, a origem divina de toda causa e sempre te reencontrarás.
Yole Fabbri Cambareri




1952/03/11 16:20 ::


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